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Bactérias no sêmen são associadas a perdas gestacionais

de catalaonews


Um desequilíbrio na comunidade de bactérias presente no sêmen pode estar associado a menores chances de nascimento e a maior ocorrência de perdas gestacionais em casais que enfrentam infertilidade ou abortos recorrentes, aponta um novo estudo publicado nesta terça-feira (4) na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.

A pesquisa acompanhou 353 mulheres e 191 de seus parceiros, todos integrantes de casais heterossexuais que realizavam tratamento de fertilidade ou apresentavam histórico de perdas gestacionais recorrentes.

Os pesquisadores analisaram simultaneamente as bactérias presentes no intestino e na vagina das mulheres e no sêmen dos homens, acompanhando posteriormente as concepções, perdas gestacionais e nascimentos.

O trabalho amplia uma discussão que historicamente se concentrou principalmente no organismo feminino: o microbioma do homem também pode estar relacionado aos resultados reprodutivos do casal. Estudo no The Lancet.

Nascimentos foram de 57% contra 85%

Entre os homens avaliados no grupo de fertilização in vitro (FIV) ou injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI), 23 apresentavam um perfil bacteriano no sêmen classificado pelos pesquisadores como “disbiose V seminal”.

Nesse grupo, 13 dos 23 casais, ou 57%, tiveram um nascimento durante o acompanhamento.

Entre os 73 casais nos quais esse desequilíbrio não foi identificado, 62, ou 85%, tiveram um bebê. The Lancet.

Análise do Opinião Goiás: diferença chega a 28 pontos percentuais

A partir dos resultados publicados pelos pesquisadores, o Opinião Goiás calculou que existe uma diferença absoluta de 28 pontos percentuais nas taxas observadas de nascimento: 57% contra 85%.

Isso não significa que o desequilíbrio bacteriano tenha provocado sozinho essa diferença. O estudo é observacional e, portanto, identifica uma associação estatística, não uma relação comprovada de causa e efeito.

Esse cuidado é particularmente importante porque fertilidade, implantação embrionária e perda gestacional podem ser influenciadas por diversos fatores.

Ainda assim, a magnitude da diferença encontrada torna o microbioma seminal uma área relevante para novas investigações.

Perdas gestacionais também foram mais frequentes

O estudo encontrou outra associação importante.

Quando os dois grupos pesquisados foram analisados em conjunto, a disbiose seminal esteve associada a maiores chances de perda gestacional. A diferença absoluta combinada no risco de perda foi de aproximadamente 21,4 pontos percentuais, segundo o trabalho.

Resultados anteriores apresentados pelos pesquisadores também apontaram uma razão de chances de 2,56 para perda gestacional associada à disbiose seminal, após ajustes estatísticos. Oxford Academic/ESHRE.

O que é o microbioma seminal?

Apesar de muitas vezes receber pouca atenção fora do ambiente científico, o sêmen não é estéril. Ele abriga diferentes comunidades de microrganismos, formando o chamado microbioma seminal.

Os pesquisadores identificaram um perfil do microbioma do sêmen semelhante ao encontrado em quadros de disbiose vaginal e o classificaram como “seminal V-dysbiosis”.

Um aspecto chama particularmente a atenção: a análise convencional do sêmen não identifica esse desequilíbrio bacteriano. Portanto, parâmetros tradicionais podem estar normais e, ainda assim, esse perfil microbiano estar presente.

Isso não significa, porém, que testes de microbioma seminal devam passar imediatamente a fazer parte da investigação clínica de todos os casais.

Intestino feminino também apresentou associação com fertilidade

O estudo encontrou um resultado diferente ao analisar as mulheres.

Maior desequilíbrio do microbioma intestinal feminino esteve associado a menor probabilidade de concepção e maior tempo para engravidar.

Entretanto, diferentemente do observado com a disbiose seminal, os pesquisadores não encontraram associação entre a disbiose intestinal e maior ocorrência de perdas gestacionais.

Outro dado surpreendente foi relacionado ao microbioma vaginal: sua composição não apresentou associação consistente com os desfechos reprodutivos estudados. The Lancet.

Pesquisa muda o foco da mulher para o casal

Para o Opinião Goiás, esse talvez seja o aspecto mais relevante da pesquisa.

A investigação da infertilidade e das perdas gestacionais não pode ser interpretada automaticamente como uma questão exclusivamente feminina. Ao analisar intestino, vagina e sêmen conjuntamente, o estudo reforça cientificamente a necessidade de estudar a reprodução a partir da interação biológica do casal.

Os próprios pesquisadores defendem que trabalhos futuros avancem de análises isoladas e concentradas nas mulheres para uma avaliação dos microbiomas dos dois parceiros.

Resultado ainda não significa tratamento disponível

Os achados são promissores, mas exigem cautela.

O desenho observacional não permite afirmar que modificar as bactérias do sêmen aumentará as chances de nascimento ou evitará abortos.

Os próprios autores reconhecem limitações, incluindo o tamanho de alguns subgrupos, a ausência de informações sobre a composição cromossômica de embriões e fetos em determinadas perdas e o caráter ainda exploratório da classificação da disbiose seminal. Oxford Academic.

Por isso, os resultados não justificam automedicação com antibióticos, probióticos ou outros produtos para alterar o microbioma.

O próximo passo científico será verificar se a associação se repete em populações maiores e investigar se intervenções direcionadas ao microbioma conseguem efetivamente melhorar os resultados reprodutivos.



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